Quer ficar mais inteligente? Volte a usar papel e caneta

12.12.2025

logo-crusoe-new
O Antagonista

Quer ficar mais inteligente? Volte a usar papel e caneta

avatar
Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 07.10.2025 20:01 comentários
Cultura

Quer ficar mais inteligente? Volte a usar papel e caneta

Escrever à mão estimula redes cerebrais associadas à memória e à codificação de informações, o que tem implicações pedagógicas em um mundo cada vez mais digital

avatar
Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 07.10.2025 20:01 comentários 1
Quer ficar mais inteligente? Volte a usar papel e caneta

F. R. (Ruud) Van der Weel e Audrey L. H. Van der Meer, cientistas do Laboratório de Neurociência do Desenvolvimento da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), publicaram um estudo sobre as diferenças na atividade cerebral durante a escrita manual e a digitação. A equipe investigou como as regiões cerebrais se interconectam por meio de redes neurais quando uma pessoa realiza essas duas tarefas.

O trabalho, conduzido em Trondheim, Noruega, envolveu 36 estudantes universitários, todos destros, com idades entre 18 e 29 anos. A pesquisa comparou a conectividade cerebral dos participantes enquanto escreviam palavras apresentadas visualmente, utilizando uma caneta digital em uma tela sensível ao toque, e enquanto digitavam as mesmas palavras em um teclado.

O objetivo era verificar se o ato de formar letras à mão, em comparação com a simples pressão das teclas, resultava em uma conectividade cerebral maior. Os pesquisadores utilizaram Eletroencefalografia (EEG) de alta densidade, com uma matriz de 256 sensores, para registrar a atividade elétrica cerebral.

Os resultados apontaram que, ao escrever à mão, os padrões de conectividade cerebral se mostraram significativamente mais elaborados e amplos do que quando os participantes digitavam em um teclado. Essa atividade foi identificada por meio de padrões de coerência teta/alfa difundidos entre centros e nós nas regiões cerebrais parietais e centrais.

O padrão espaciotemporal gerado pela informação visual e proprioceptiva, que é obtida através dos movimentos controlados e precisos da mão ao usar a caneta, contribui amplamente para os padrões de conectividade cerebral que favorecem o aprendizado.

Aumento da conectividade neuronal

A conectividade cerebral funcional foi medida usando o método de coerência, que calcula as interações entre as fontes neurais reconstruídas. Os resultados mostraram que a conectividade era mais significativa nas frequências mais baixas para a escrita manual em contraste com a digitação.

Essas frequências incluíram a banda theta (3.5–7.5 Hz) e a banda alfa (8–12.5 Hz). Essa atividade aumentou entre 1.000 e 2.000 milissegundos após o início da tarefa e perdurou durante todo o ensaio de escrita.

Análises estatísticas detalhadas revelaram 32 diferenças significativas entre as duas condições experimentais. Essas diferenças na conectividade se concentraram principalmente nas regiões parietais (esquerda, mediana e direita) e também nas regiões centrais do cérebro.

A matriz de conectividade demonstrou uma concentração de 16 conexões significativas para a escrita manual em relação à digitação. Os pesquisadores observaram que a escrita manual ativou padrões de coerência teta/alfa em amplas áreas, incluindo a interação entre regiões parietais e centrais.

A conectividade aumentada tem sido associada a mecanismos que sustentam a integração sensorimotora. Como essa conectividade maior foi observada apenas na escrita manual e não no simples gesto de pressionar as teclas, as descobertas indicam que a prática da escrita favorece a aprendizagem.

A literatura existente indica que padrões de conectividade nessas áreas cerebrais e nessas frequências são fundamentais para a formação de memória e para a codificação de informações novas, o que é vantajoso para a aprendizagem.

O movimento preciso da mão como estímulo

O estudo indica que o envolvimento de movimentos manuais finos e complexos, típicos da escrita com caneta, é mais benéfico para o aprendizado do que a ação de pressionar teclas. A escrita manual exige um controle motor refinado sobre os dedos e direciona a atenção do estudante para a tarefa.

A digitação, por outro lado, requer movimentos mecânicos e repetitivos. O padrão contínuo e sincronizado de comandos motores, feedback proprioceptivo e visão, fornecido pelos movimentos minuciosos das mãos e dedos, está ausente na digitação.

No experimento, os participantes usaram somente o dedo indicador direito para digitar, o que foi uma medida para evitar a influência de efeitos de cruzamento indesejados entre os dois hemisférios cerebrais. A digitação requer apenas o pressionamento de uma tecla para produzir a forma completa desejada.

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que a escrita manual auxilia na precisão ortográfica e na recordação e memória. Também foi verificado que esta prática facilita o reconhecimento e a compreensão de letras. Estes benefícios são observados independentemente de o instrumento ser uma caneta ou um lápis tradicional, ou uma caneta digital.

A neurociência aponta que o que auxilia o aprendizado não é qualquer tipo de atividade motora, mas sim a coordenação precisa dos movimentos complexos da mão, moldando cuidadosamente cada letra. Os processos neurológicos distintos provocados pela caneta fornecem ao cérebro condições ótimas para a aprendizagem e a lembrança.

A importância da escrita à mão no ambiente educacional

Os autores levantam a preocupação de que a substituição da escrita à mão pela digitação em escolas possa ter, a longo prazo, um impacto desfavorável no processo de aprendizagem. Por isso, recomendam que, junto ao uso das novas ferramentas tecnológicas, pedagogos, professores e responsáveis insistam na manutenção da prática da escrita manual.

As crianças deveriam receber treinamento de caligrafia desde cedo, para estabelecer os padrões de conectividade neuronal que oferecem condições ideais para o aprendizado. Professores e alunos decidirão quando é mais vantajoso usar a caneta para tomar notas de aula sobre conceitos inéditos ou quando é oportuno usar um dispositivo digital para redigir textos mais longos.

*

O artigo Handwriting but not typewriting leads to widespread brain connectivity: a high-density EEG study with implications for the classroom” pode ser lido na íntegra.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Os detalhes do contrato do escritório da mulher de Moraes com o Master

Visualizar notícia
2

Crusoé: “A Venezuela já foi invadida”, diz María Corina Machado

Visualizar notícia
3

Por falta de votos, Carla Zambelli se livra de cassação de mandato

Visualizar notícia
4

Leia quem votou a favor e contra a cassação de Carla Zambelli

Visualizar notícia
5

Eduardo ataca Motta: “Virou boneca do Moraes”

Visualizar notícia
6

Manual sobre como prosperar, e muito, neste país sem pudor

Visualizar notícia
7

Operação Contenção é recebida a tiros em São Gonçalo

Visualizar notícia
8

Câmara cria Bancada do Pontapé

Visualizar notícia
9

Crusoé: TI Brasil repudia aprovação do PL da Dosimetria na Câmara

Visualizar notícia
10

Moraes manda PF apurar se Bolsonaro precisa de cirurgia

Visualizar notícia
1

Moraes anula decisão da Câmara e determina perda do mandato de Zambelli

Visualizar notícia
2

Manual sobre como prosperar, e muito, neste país sem pudor

Visualizar notícia
3

Eduardo ataca Motta: "Virou boneca do Moraes"

Visualizar notícia
4

Os detalhes do contrato do escritório da mulher de Moraes com o Master

Visualizar notícia
5

Crusoé: "A Venezuela já foi invadida", diz María Corina Machado

Visualizar notícia
6

Câmara cria Bancada do Pontapé

Visualizar notícia
7

PF indicia Gayer por desvio de cota parlamentar

Visualizar notícia
8

"Tem que pagar pela tentativa de golpe", diz Lula sobre Bolsonaro

Visualizar notícia
9

Carluxo anuncia renúncia do mandato por vaga ao Senado em SC

Visualizar notícia
10

Bolsonaro está em "regime de solitária", diz Bilynskyj após visita na PF

Visualizar notícia
1

EUA “saúdam” PL da Dosimetria, diz vice de Rubio

Visualizar notícia
2

Moraes cita decisão do STF no mensalão ao cassar Zambelli

Visualizar notícia
3

Pesquisa mostra os impactos da inteligência artificial na sociedade

Visualizar notícia
4

Em ritmo de campanha, Lula não esquece Bolsonaro

Visualizar notícia
5

A blindagem de Carla Zambelli na Câmara

Visualizar notícia
6

Lindbergh celebra cassação do mandato de Zambelli: “Vitória”

Visualizar notícia
7

A operação na Câmara para salvar Glauber Braga

Visualizar notícia
8

“A Constituição não passa de um papel higiênico pro Moraes”, diz Nikolas

Visualizar notícia
9

Crusoé: Putin reafirma “apoio às políticas” de Maduro

Visualizar notícia
10

Líder do PL na Câmara ataca Moraes: “Ditador psicopata”

Visualizar notícia

Tags relacionadas

educação Neurociência
< Notícia Anterior

O que é fato e o que é fake na ciência da longevidade

07.10.2025 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Helicóptero cai em rodovia na Califórnia; tripulantes ficam em estado crítico

07.10.2025 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Gustavo Nogy

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (1)

Marcia Elizabeth Brunetti

11.10.2025 14:02

Eu estudo assim. Estou com 64 anos! Ah, sou uma ambidestra em diversas atividades, mas não para escrever, aí só a mão esquerda mesmo.


Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.