Por que agimos contra os nossos próprios interesses?
Pesquisa defende que as mudanças de comportamento dependem da alteração das expectativas inconscientes, e não apenas da força de vontade
Ajustar a dieta, fazer exercícios, estudar mais, trabalhar melhor? Todo mundo quer e promete mudar – os otimistas, na segunda-feira de cada semana; os desenganados, no dia primeiro de cada janeiro. Mas por que é tão difícil fazer o que sabemos que é bom para nós?
Pieter Van Dessel, professor na Ghent University e membro do Learning and Implicit Processes lab, defende que o comportamento humano é guiado por um sistema de “predição”, e não pela força de vontade. O modelo dessa perspectiva teórica tem nome comprido: “Processamento Preditivo Orientado a Objetivos (GDPP)”.
A ideia é a seguinte: nosso sistema mental o tempo todo gera expectativas sobre o que ocorrerá no futuro, e nisso incluímos nossas ações, sentimentos, pensamentos e sentimentos. Ou seja, o futuro que imaginamos já é imaginado considerando nossas ações, sentimentos, reflexões etc.
A armadilha consiste no fato de que essas previsões, muitas vezes inconscientes, acabam moldando a própria conduta: há uma tendência a agir em conformidade com o que é previsto. É uma espécie de profecia autorrealizável.
Quando as expectativas internas são confirmadas, o sistema se autorreforça, tornando o comportamento esperado mais inerente e natural com o tempo. Assim, mesmo com as melhores intenções, é frequente que os indivíduos ajam de forma oposta aos seus valores.
Sistema de predição versus resistência à mudança
O GDPP descreve a conduta como o resultado de uma rede de crenças interligadas sobre o eu e o mundo. O objetivo desse sistema é manter a coerência interna e diminuir a “surpresa” mental indesejada.
Tentar agir de maneira diferente do que foi previsto interrompe o padrão familiar e gera uma inconsistência. O conjunto dessas expectativas sobre o que o indivíduo fará constitui o “autoconceito”.
Mudar um hábito, portanto, implica ir contra essa autoimagem estabelecida. O sistema dispara a resposta familiar para restaurar o equilíbrio, mesmo que vá contra valores importantes, como a saúde.
Uma pessoa que tenha tentado parar de fumar e se sinta estressada, por exemplo, pensará – mais precisamente: “será pensada…” – que um cigarro ajudará a restabelecer o equilíbrio. Isso ocorre porque a ação foi repetida no passado e, para o sistema, essa previsão parece coerente.
Da mesma forma, indivíduos que se entendem como carnívoros ou sedentários podem inconscientemente prever a evitação de atividade física ou alimentos saudáveis. Essa previsão persiste mesmo que a pessoa valorize a saúde de forma verbal.
Modificando a rota da previsão pessoal
A transformação de condutas prejudiciais não começa pela motivação. A resposta consiste em mudar, tanto quanto possível, a imagem daquilo que o indivíduo espera de si mesmo.
Se o sistema prevê uma determinada ação, essa previsão funciona como um guia autorrealizável. Contudo, o princípio funciona de maneira inversa, de acordo com o GDPP.
O professor Van Dessel afirma que esperar algo diferente de si mesmo de forma consistente também pode se tornar realidade. A transição pressupõe reforçar crenças construtivas que o sistema mental possa executar, sem gerar resistência interna.
Em vez de pensar “eu deveria comer de forma mais saudável no jantar”, ajudaria internalizar a seguinte expectativa: “Eu provavelmente comerei de forma mais saudável no jantar, porque isso faz parte de quem eu sou – se encaixa no meu autoconceito”.
Três sugestões
Para construir novas previsões, podem ser utilizadas estratégias que auxiliam na internalização de convicções úteis:
Conectar novas ações a um aspecto já existente do autoconceito. Comer de forma saudável pode ser ligado ao desejo de longevidade, por exemplo.
Praticar o ensaio mental sobre a resposta desejada em situações relevantes. Isso permite ao sistema começar a prever as novas ações, como imaginar pedir uma refeição saudável em um restaurante.
Antecipar a conduta esperada no dia a dia. Ao fazer isso, o comportamento começa a parecer natural e previsto pelo sistema.
Crenças não são imutáveis. Assim como padrões prejudiciais, padrões úteis também podem se tornar realizáveis. Quando o sistema começa a esperar uma melhor conduta, o indivíduo tende a se equiparar a essa expectativa.
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