Novo estudo indica que linguagem humana existe há 135 mil anos
Nova estimativa sugere que a adaptação biológica para o conhecimento linguístico precede a migração global do Homo sapiens
Um estudo interdisciplinar que une dados de linguística, genética e arqueologia redefiniu o marco temporal para a origem da capacidade linguística humana. A pesquisa, publicada em março na revista Frontiers in Psychology, concluiu que esta característica biológica já estava presente há, no mínimo, 135 mil anos.
Este achado empurra a estimativa anterior, que situava o surgimento da capacidade em 125 mil anos atrás. A investigação apoia-se no pressuposto de que a linguagem é uma adaptação biológica única e comum a todas as populações do Homo sapiens.
A presença da linguagem, portanto, precisaria ser anterior ao momento em que a espécie iniciou a primeira emigração para fora da África, cerca de 120 mil anos atrás. Encontrar o período em que a espécie se dividiu marca um limite inicial para o surgimento dessa habilidade.
Refinamento da cronologia evolutiva
O novo limite inferior de tempo estabelecido pela pesquisa tem a função de guiar futuras inferências sobre a evolução da espécie. A datação indica que a capacidade linguística se desenvolveu enquanto o grupo humano ainda era único e indiviso no continente africano. Para chegar a essa precisão, os pesquisadores compilaram e analisaram 15 estudos genéticos publicados ao longo dos últimos 18 anos.
Os dados incluíram exames de DNA mitocondrial, cromossomo Y e sequenciamento do genoma completo. A bióloga Mercedes Okumura, do Instituto de Biociências da USP e coautora do artigo, explicou o objetivo do trabalho: “O que fizemos foi deixar mais precisa a estimativa para a primeira divisão populacional, ao considerar análises que até alguns anos atrás não estavam disponíveis”.
A pesquisadora também ressalta que o estudo aponta apenas para um limite mínimo: “Não estamos apontando uma data exata, pode ser que a linguagem tenha surgido antes ainda desse momento”.
Estudos genômicos apontam o ancestral direto dos povos Khoisan como a provável linhagem que sofreu a divergência inicial, espalhando a capacidade linguística.
Linguagem como adaptação cognitiva
A linguagem, no contexto da pesquisa, deve ser diferenciada da língua falada ou idioma e não se define exclusivamente pela comunicação. Para muitas vertentes científicas, a linguagem é uma decorrência da evolução que alterou a estrutura cerebral.
O linguista Vitor Nóbrega, da USP e coautor, define a linguagem como um fundamento biológico: “Todo indivíduo humano nasce com uma capacidade intrínseca que serve de base para desenvolver o conhecimento linguístico e é, portanto, uma forma de expressão genética”.
As línguas, por sua vez, são arranjos específicos que manifestam essa capacidade cognitiva universal, podendo ser aprendidas ao longo da vida. Nóbrega afirma que “as línguas, sim, podem ser aprendidas ao longo da vida. Cada uma delas é uma possível forma de arranjo que expressa essa base cognitiva comum a todos”.
Sem a fossilização das línguas, a datação da linguagem depende de evidências indiretas no registro arqueológico, como o pensamento simbólico. Tais achados, que denotam um comportamento complexo, começam a se manifestar de forma sistemática a partir de 100 mil anos atrás na linhagem do *Homo sapiens*.
Esses registros incluem adornos, resquícios de rituais e pinturas rupestres, como as da serra da Capivara. O estudo propõe que a linguagem evoluiu de uma adaptação puramente cognitiva, de organização de pensamentos, para um sistema comunicativo e social.
O debate sobre ‘protolinguagem’ em hominídeos
Apesar dos novos dados, a ausência de um consenso científico sobre a definição de linguagem mantém o debate em aberto. O linguista Fernando Orphão de Carvalho, da UFRJ, aponta que a filogenia evolutiva gerada depende da conceituação de linguagem escolhida.
Outra discussão se relaciona a outros hominídeos. Evidências mostram que neandertais e denisovanos também produziram artefatos e ferramentas que podem estar ligados a um comportamento mediado por símbolos. A filósofa Nathalie Gontier, da Universidade do Porto, levanta a questão da complexidade: “Mas aí era já linguagem, era uma protolinguagem ou era um sistema de comunicação primitivo?”.
Ela explica que a resposta varia conforme as definições adotadas por cada campo de pesquisa. Gontier foca no conceito de “composicionalidade”, que implica que a linguagem envolve não apenas a associação de comportamento, mas também uma ordem e estrutura hierárquica na qual os significados são posicionados.
Embora neandertais apresentem atividades simbólicas esporádicas, o linguista Vitor Nóbrega defende que é apenas na linhagem do Homo sapiens que os registros arqueológicos de comportamento simbólico surgem de forma coerente e sistemática. Gontier conclui que as evidências crescentes de comportamento composicional em outros animais sugerem que o pensamento pode ser ordenado mesmo sem a presença de comunicação ou língua.
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