É possível dar um ‘upgrade’ no seu cérebro?
Habilidade de pensar sobre o próprio pensamento facilita e acelera o aprendizado, e refina a tomada de decisões, segundo estudos sobre cognição
Consideremos a seguinte hipótese: nosso cérebro opera em um fluxo contínuo, criando e agindo com base em previsões de certos resultados; ao observar o que ocorre, atualiza seu modelo. É uma espécie de sistema que funciona no modo automático, sem pressupor o pensamento consciente na maior parte do tempo. Um exemplo desse ciclo rápido e eficiente é aprender – e reagir em conformidade nas experiências subsequentes – que algo quente causa dor após o contato inicial.
Mas esse mecanismo automático apresenta falhas. O sistema de aprendizado tende a focar em sinais incorretos, sendo facilmente influenciado por eventos recentes, humor ou vieses que não são percebidos. Além disso, ele não consegue examinar a si próprio ou determinar se as lições extraídas das experiências são válidas, operando sem um “espelho” para a autoanálise.
Métodos para refinar a capacidade cognitiva
Quando uma pessoa se dispõe a questionar a base de seu raciocínio ou seu nível de confiabilidade de uma ideia, ela se engaja em um processo qualitativamente diferente da reflexão automática. Indivíduos que verificam sua segurança regularmente tornam-se mais eficazes em distinguir o que dominam daquilo que apenas supõem dominar. Isso resulta em uma percepção mais nítida de sua compreensão.
A auto-observação permite que especialistas detectem e corrijam problemas enquanto a tarefa está em andamento, em vez de esperarem pelos resultados finais. Um cirurgião, por exemplo, pode perceber se a fadiga está afetando a qualidade de suas escolhas, assim como um mestre de xadrez monitora sua análise para verificar se a emoção influencia seu julgamento. Isso é o que Anne-Laure Le Cunff, no artigo “How to upgrade your brain’s feedback loop”, publicado no Big Think, chama de “metacognição”.
Metacognição: pensar o próprio pensamento
A metacognição é a capacidade de refletir sobre os próprios processos de pensamento. Pensar o pensamento. Essa habilidade possibilita a melhoria do processo de aprendizado e auxilia na tomada de decisões mais eficazes. O conceito vai além do simples acúmulo de vivências, pois permite ao indivíduo refinar a maneira como interpreta essas experiências. Ao notar como a mente avalia o próprio trabalho, é possível alterar abordagens e resultados. O monitoramento consciente da atividade mental funciona como uma ferramenta para aprimorar o sistema de aprendizado. A rigor, é a proposta da filosofia. Mais do que de conteúdos, a filosofia se ocupa da maneira com que podemos pensar sobre os conteúdos.
É possível treinar a metacognição através de diversas práticas. Uma técnica é a autoexplicação: ao aprender algo novo, deve-se questionar o porquê daquilo fazer sentido e como se conecta a conhecimentos preexistentes. Outra estratégia é investigar falhas, sem a pressa de seguir adiante, analisando onde o raciocínio quebrou e quais suposições foram feitas.
Outras ferramentas envolvem verbalizar o processo de pensamento, tornando o raciocínio que é invisível passível de exame. Recomenda-se também verificar o nível de convicção em decisões, avaliando se a segurança deriva de evidências sólidas ou apenas de uma sensação. Observar os processos mentais sem julgamento, mesmo que por curtos períodos, também contribui para o desenvolvimento da consciência mental. A manutenção da curiosidade sobre o funcionamento da mente é um elemento importante para o sucesso dessa prática.
“Quando você para para perguntar: “Quanta certeza tenho sobre isso?” ou “Qual é a base do meu raciocínio?”, você está fazendo algo qualitativamente diferente do pensamento automático: você está observando sua própria mente em ação”, conclui Le Cunff.
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