Gustavo Nogy na Crusoé: Lô Borges e a esquina como licença poética
“O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus” – Oswald de Andrade
Assim que soube, liguei para a minha irmã: “Lô Borges morreu!”.
Ela já sabia. Tomei conhecimento da notícia pública, me irritei com a morte besta, porque toda morte é besta, e me lembrei de uma anedota pessoal.
Recordo que, quando bem menino, aos oito, dez anos, vinham do quarto da minha irmã uns sons que eu ouvia e dos quais gostava, ainda sem entender — e foi também com ela que escutaria os discos quando mais moço, já entendendo.
A poesia dos rapazes que se encontravam incidentalmente entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, educou meus ouvidos, educou os ouvidos de muita gente e, mal-acostumados, demoraríamos para nos acostumar com outros sons, outros sentidos, outras cacofonias, outras barbaridades.
E pensar que a música brasileira já foi tão sofisticada e tão assoviável!
“Sei que nada será como antes, amanhã
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?…”
Lô Borges – com ele Milton Nascimento, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Márcio Borges, Flávio Venturini… – não se contentou em criar um dos melhores discos de sempre da MPB – claro, estou falando do “Clube da Esquina” –, nem uma das melhores estreias de um artista solo – sim, estou falando do “Disco do Tênis”.
Mais do que grandes álbuns, com ou sem os parceiros criativos, ele foi a grife de uma espécie de “movimento” sonoro, uma atmosfera estética, difícil de ser definida mas fácil de ser reconhecida logo às primeiras notas, aos primeiros versos.
A mistura de bossa-nova e Beatles, jazz e rock, mineirice e psicodelia resultou numa obra-prima – que, por sua vez, gestaria muitas outras obras-primas: “Queríamos fazer uma obra de arte”, disse Lô Borges. Fizeram.
Que não tenha existido precisamente um clube, nem exatamente uma esquina – saber que o clube da esquina “não…
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Comentários (1)
Annie
09.11.2025 11:42Com certeza o clube da esquina educou os meus ouvidos.