Gustavo Nogy na Crusoé: Mainardi não vai para o céu
O livro "Meus Mortos" pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora
Diogo Mainardi é um homem de muitas existências e de muitas desistências.
Foi estudante da London School of Economics e logo saiu da universidade. Depois de se graduar e pós-graduar no que interessava, sob a (des)orientação do Ivan Lessa, aproveitou o embalo, seguiu o bom mau exemplo do mestre e foi embora do Brasil.
Escreveu e produziu filmes, mas desistiu do cinema. Depois de publicar Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, mandou a literatura às favas.
Para enganar o tédio, virou o colunista mais influente da Veja.
O tempo passou, o país parou e ele se cansou da influência, do colunismo e da Veja.
Falou tudo o que quis, até que não quisesse falar mais nada no Manhattan Connection.
Fundou O Antagonista e encheu o saco do jornalismo chapa-branca, enquanto se enchia da imprensa, da política, dos leitores.
Até do Lula, de quem foi o melhor inimigo, ele desistiu.
Primeiro com A Queda, em que conta a história, entre outras histórias, do erro médico que fez seu filho Tito nascer com paralisia cerebral, e agora com Meus Mortos, em que perambula por Veneza com o filho Nico e o cachorro Palmiro, Mainardi parece ter abandonado qualquer esperança.
Sem o peso da esperança, pode continuar.
Como um materialista que tivesse fé no espírito artístico, como um budista a quem irritassem as iluminações, ele faz do seu livro um hilário álbum de retratos em que se mostra e se esconde por meio da pintura de Tiziano, das saudades do irmão, dos desencontros com o pai, das cinzas da mãe.
Ele sabe que somos feitos dos mortos e dos vivos que nos habitam e que habitamos.
A opção retrô – e experimental – pela fotonovela causa estranheza a princípio, mas é uma ótima solução formal. Mainardi junta o cômico e o melancólico, o factual e o ficcional, o histórico e o biográfico, a arte e a peste para costurar, se possível for, algumas porções de sentido em meio ao absurdo.
O livro pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora, porque nunca…
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Comentários (1)
Marian
14.12.2025 16:12Gosto do jornalismo do Mainardi, embora discordasse aqui e ali. As mudanças de rota, fazem parte da vida e pensando bem, existem elementos desprezíveis, pra que perder tempo com eles?