Um pedido de Haddad para Papai Noel
“Estou louco para ver uma ata do Banco Central dizendo que eu estou fazendo um esforço fiscal relevante”, disse. Talvez o bom velhinho possa ajudar
Fernando Haddad (foto) voltou a reclamar do Banco Central por causa da taxa básica de juros a 15% ao ano.
Em entrevista ao Estadão, o ministro da Fazenda repetiu o discurso de que se sente injustiçado. “Estou louco para ver uma ata do Banco Central dizendo que eu estou fazendo um esforço fiscal relevante, como fez o FMI. Mas vai chegar meu dia”, disse.
A última ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada nesta semana, repetiu o que vem dizendo desde agosto de 2023 (ou seja, há mais de dois anos):
“O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade. O Comitê manteve a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê evidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas.”
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Dividindo a meta
O ministro da Fazenda finge que não é com ele, mas, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o governo Lula deve gastar, de 2023 a 2026, 400 bilhões de reais fora da meta fiscal, por despesas como os 9,5 bilhões de reais previstos por medida provisória para socorrer as empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump, que ainda não foram aprovados pelo Congresso Nacional.
Pior: a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), o ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União (TCU), aceitou, em outubro, liberar o governo Lula de buscar o centro da meta fiscal em 2025. A decisão ainda deverá passar pelo plenário do TCU, mas, até lá, afasta o risco de um bloqueio adicional de até 31 bilhões de reais no Orçamento.
O resultado disso tudo é uma taxa Selic de 15% ao ano, o maior patamar da história, que será mantido por um bom tempo, segundo o Copom, para controlar a inflação que o governo Lula segue pressionando com promessas de gastos eleitoreiros, como o vale-gás e o programa Pé-de-Meia.
Citando Trump?
A dificuldade de Haddad para sustentar o discurso de injustiçado e defender a legitimidade de dar pitaco sobre a taxa básica de juros é tão grande que ele apelou para Trump na entrevista ao Estadão.
“Eu vejo os editoriais dos jornais falando do Haddad, mas, nos EUA, o presidente Donald Trump não para de falar do presidente do Fed, Jerome Powell”, comentou o ministro, que respondeu o seguinte ao ser questionado se o presidente americano é uma boa referência:
“Eu falo educadamente de um assunto técnico, respeitando quem pensa diferente de mim. Eu não diminuo a importância ou o conhecimento de ninguém. Agora, evitar o debate público… Quer dizer, eu sou ministro da Fazenda, não posso falar do assunto quando 300 caras lá da Faria Lima falam? O debate é saudável, não tem problema.”
Papai Noel
Já que o presidente octogenário que governa o Brasil não está disposto a fazer aquilo que precisa ser feito para que Haddad receba enfim seus parabéns do Banco Central, talvez seja o caso de o ministro da Fazenda apelar a outro velhinho, com melhor fama, e pedir um milagre de Natal.
O risco é o Correios, que enfrenta um rombo de 20 bilhões, não conseguir entregar a carta.
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Comentários (2)
Vitor Carlos Marcati
14.11.2025 12:19Esforço fiscal??? Hahaha
Rafael Tomasco
14.11.2025 11:51Enquanto a casta política canalha continuar com o seu populismo barato (porém ainda funcional para um povo medíocre), e não promoverem pelo menos uma reforma estruturante na economia, o rombo fiscal só vai continuar crescendo, e cada vez mais tributação virá aos nossos bolsos - e se vocês acham que tá ruim agora, não se preocupem, vai piorar