Ragnarök em Brasília

15.10.2026

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O Antagonista
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Carlos Graieb
4 minutos de leitura 05.09.2026 08:39 comentários
Análise

Ragnarök em Brasília

Há uma atmosfera de fim dos tempos no Brasil. A impressão não é de salve-se quem puder, mas de que ninguém se salva

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Carlos Graieb
4 minutos de leitura 05.09.2026 08:39 comentários 1
Ragnarök em Brasília
Foto: Luiz Silveira/ STF

Depois da montagem de Tristão e Isolda atualmente em cartaz, o Teatro Municipal de São Paulo deveria considerar a hipótese de levar ao palco O Crepúsculo dos Deuses.

Além de ser outra obra-prima operística de Richard Wagner, haveria uma perfeita sintonia com o momento político brasileiro. Seu tema é o fim do mundo, causado pela ânsia de poder. Tudo se corrompe e desmorona. Nem os céus sobrevivem.

Na falta da ópera, leiam-se os mitos que lhe servem de ponto de partida. Há uma versão redigida pela grande escritora inglesa Antonia Byatt, curtinha e traduzida no Brasil: Ragnarök – O fim dos deuses.

A dimensão política não é tão pronunciada nos mitos quanto na ópera. Neles, o tema fundamental é que nem os seres mais poderosos conseguem escapar ao seu destino cósmico. E o que fazer, se um desfecho inescapável está à espera?

Leia mais: Moraes acusa o espelho

A glória da boa reputação

Odin, o soberano dos deuses, tem a resposta: “O gado morre, os nobres morrem e nosso ser vai se extinguir do mesmo modo; mas a glória da boa reputação nunca morre para aquele que a conquista”.

Como negar que essa ideia também dialoga com aquilo que se vê acontecendo em Brasília?

A propósito, a tradução mais exata de Ragnarök, segundo os especialistas é “a ruína dos poderes”. Só para registrar.

Toda essa introdução na vibe do fatalismo nórdico vem a propósito da crise que, nesta semana, arrastou o STF de vez para o fundo do poço, mas de maneira nenhuma se restringe ao tribunal.

Ela engloba as cúpulas do Congresso, Executivo, Polícia Federal, Procuradoria Geral da República. Os nomes mais vistosos da situação, da oposição e do centrão.

Não existe autoridade a salvo

O mais impressionante da história toda é que não existe autoridade a salvo da pancadaria. Em outros episódios escandalosos da política brasileira, sempre era possível encontrar alguma instituição com a força necessária para impor ordem ao caos e alguém que parecesse (ao menos parecesse) uma reserva moral. Desta vez, não – o que é inédito.

Lula, Flávio, Alcolumbre, Motta, Andrei, Gonet, Moraes, Toffoli, Mendes, Dino. Todos aparecem mencionados em alguma troca de mensagens de arrepiar os cabelos ou agindo em favor deste ou daquele interesse particular e partidário – jamais em benefício da verdade ou do interesse comum dos brasileiros.

Uns atiram contra os outros, sem se preocupar com danos colaterais.

No episódio mais recente, Alexandre de Moraes – personagem a esta altura completamente desmoralizado – procurou atingir André Mendonça com um documento que afirma, entre outras coisas, que o ministro-relator do Caso Master age para destruí-lo, ao mesmo tempo que protege Kássio Nunes Marques e Dias Toffoli, colegas de ambos no STF.

O documento, um suposto relatório da PF, é apócrifo e nem sequer foi impresso em papel timbrado da corporação. O problema é que neste momento, por mais que Mendonça tenha feito muito bem em expor as relações intoleráveis de Moraes com Daniel Vorcaro, não se pode descartar completamente a hipótese de que ele esteja empenhado em devolver o bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

Nem se pode descartar que ele tenha cedido, só um pouquinho, às seduções do vorcarismo, aceitando de presente um terno de tecido importado e corte caro.

Há uma atmosfera de fim dos tempos no país. Um Ragnarök em Brasília. A impressão não é de salve-se quem puder, mas de que ninguém se salva. E, ao contrário dos deuses nórdicos, nenhum dos poderes em ruína parece se importar com honra, postado à beira do abismo.

Leia mais: Alguém acorde Paulo Gonet

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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Comentários (1)

Otreblig50

05.09.2026 14:56

Aparentemente não vai sobrar ninguém para apagar a luz, na saída !!! Mas ELES sempre darão um jeitinho de APAGAR TODOS OS FATOS, e seguirem impunes e livres para sempre. Não sem antes PUNIREM OU ELIMINAREM TODOS OS INVESTIGADORES E DENUNCIANTES DE SEUS DESMANDOS !! Como sempre aconteceu nesta bananópolis tupiniquim !!!


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