Os adultos na cela
Michelle e Tarcísio emergem como intercessores de Bolsonaro no STF, num movimento pragmático que não coaduna com as narrativas bolsonaristas
Apenas os apoiadores mais ingênuos de Jair Bolsonaro acreditam que um filho do ex-presidente tem condição de governar o Brasil após o longo e desgastante processo de julgamento que o levou à cadeia por tentativa de golpe de Estado.
Esses bolsonaristas são iludidos, hoje, por uma claque que alimenta a esperança de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está lutando contra o “sistema”, usando um discurso de que até Donald Trump se valeu para conseguir se eleger presidente dos Estados Unidos por duas vezes.
A narrativa nem sequer faz sentido, porque o próprio Bolsonaro já teria sido derrotado por esse mesmo sistema, contra o qual os bolsonaristas querem empurrar agora Flávio.
Se o sistema encarcerou o pai, por que daria ao filho a oportunidade de enfrentá-lo e submetê-lo? Sob essa perspectiva, só há saída por dentro do sistema, como o próprio bolsonarismo já experimentou no governo do patriarca.
Sobrevivência
A pré-candidatura de Flávio é, antes de tudo, uma tentativa de sobrevivência política da família. Para poder negociar, é preciso ter algo a oferecer. E a família tem, hoje, a pré-candidatura presidencial do senador a oferecer em troca de seja lá qual for o benefício para Bolsonaro.
Quanto mais avança a pré-candidatura de Flávio — e ele conseguiu reduzir um pouco a alta rejeição, segundo a última pesquisa Genial/Quaest — mais valiosa ela fica para negociar.
Mas há um limite: como a candidatura é politicamente inviável — também pelo histórico de Flávio, que comprometeu o governo do pai por causa da investigação sobre rachadinha —, é preciso calcular o momento em que ela atingirá o máximo valor antes de perdê-lo totalmente.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (foto) emergiu nesta semana como articuladora com os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). E não foi a primeira da família a perceber que o discurso anti-sistema é bom para angariar votos, mas não vai muito além de mobilizar apoio popular.
Gilmar
Foi Bolsonaro que aconselhou o filho Eduardo a esquecer “qualquer crítica ao Gilmar”, num conselho que foi revelado nas investigações da trama golpista.
Pois Michelle esteve com o decano do STF, Gilmar Mendes, e Alexandre de Moraes no mesmo dia em que o último despachou para encaminhar Bolsonaro para a Papudinha, onde o ex-presidente terá melhores condições para cumprir sua pena de 27 anos e três meses de prisão.
Tarcísio de Freitas (Republicanos) também teria participado dos esforços para amolecer Moraes, e os dois, o governador de São Paulo e a ex-primeira-dama, foram celebrados pelo pastor Silas Malafaia, crítico da candidatura de Flávio:
“PARABÉNS A MICHELLE E TARCÍSIO ! Souberam articular para tirar Bolsonaro da PF para um lugar melhor . Certas vitórias se conquistam por etapas , não é o ideal porque a prisão é resultado de vergonhosa perseguição política.”
Tanto Tarcísio quanto Michelle disseram que o objetivo segue sendo a prisão domiciliar, a maior comodidade possível para um condenado. Mas o preço parece ser a rendição presidencial da família.
Medir forças
Carlos e Eduardo Bolsonaro não demonstram qualquer disposição para isso, e mandam recados desaforados para os aliados, às vezes de forma direta e às vezes de forma indireta.
O ex-vereador do Rio e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina disse o seguinte:
“Tenho convicção absoluta, diante dos fatos mais recentes, de que o objetivo jamais foi medir forças com os filhos de Jair Bolsonaro. Isso sempre foi apenas a superfície do jogo. O verdadeiro intento, ainda que de forma dissimulada, é medir forças com o próprio Jair Bolsonaro.“
Michelle respondeu aos críticos com um pedido: “No tempo oportuno, vocês irão compreender todas as coisas. Confiem nele (Jair). Confiem em mim. Confiem em Deus!”.
E acrescentou:
“Que Deus nos ajude e nos conceda sabedoria e discernimento para enfrentarmos as incompreensões, as ofensas e os desafios que ainda virão.
Que Deus toque os corações de todos aqueles que agora nos atacam, para que sejam capazes de compreender a verdade que lhes será revelada no tempo oportuno.”
Meninos e homens
Os sinais trocados deixam a militância confusa. O que Bolsonaro de fato quer? Do que ele realmente mais precisa e quais são suas reais possibilidades de alguma vitória? Qual é a melhor forma de conseguir isso? E quem realmente fala por ele?
Mandar um recado como o de Carluxo publicamente é infantil, mas é assim que Eduardo e o irmão atuam, seja ao pleitear sanções internacionais contra ministros do STF ou ao interferir em acordos regionais por escolhas eleitorais inexplicáveis.
Segundo o próprio Bolsonaro, esse tipo de comportamento seria reflexo de imaturidade.
Enquanto isso, os adultos na cela tentam resolver o problema mais urgente do detento Bolsonaro.
Leia mais: Tarcísio virou um Frankenstein invertido
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Maglu Oliveira
17.01.2026 11:57"O que Bolsonaro de fato quer? - O que ele quer é mais do que claro: ficar livre e voltar a controlar o país. Mas esqueceu-se de combinar com os "russos", nós, os eleitores. E eu, da minha parte, quero ele preso por muitos anos e quero essa família aloprada bem do longe do governo, melhor seria fora do Brasil. Esses Bolsonaros conseguiram uma proeza normalmente difícil de ser superada: ser pior que o Lula.